agora é rir pra não chorar
Quem viver verá o tal corregedor da Câmara dos Deputados sair bem na fita nessa história de castelo de 25 milhões de reais… E olha que o cara era o CORREGEDOR! Pra quem não sabe, é a pessoa que zela pelo bom andamento [leia-se correto, dentro da ética -será que eles sabem o que é isso??? - sem bandidagem etc] desta corja que sustentamos lá em Brasília. Fiquei indignada e tenho certeza de que todos os brasileiros - que realmente se importam – também ficaram.
Por isso resolvi colocar aqui no blog a coluna da Ruth Aquino, diretora da sucursal da revista Época no Rio de Janeiro, de 9 de fevereiro - hoje. Intitulada “Um castelo cafona no reino da hipocrisia”, acredito que ela fala o que muita gente gostaria de ter espaço para falar. E espero que as pessoas comecem a se importar mais com os acontecimentos. Como é que o Lula ainda está crescendo nas pesquisas de aprovação popular? Tem algum jeito de entender isso?
Agora entendi o verdadeiro destino dos 15 milhões de sachês de gel lubrificante comprados pelo Ministério da Saúde para distribuir no Carnaval. O castelo do corregedor da Câmara, Edmar Moreira, é impossível de absorver a seco. Dói nas entranhas da consciência brasileira a empáfia do deputado: “Renunciar por quê? Estou sendo condenado por qual tribunal?”. O pior é que Edmar está certo na presunção da impunidade. Ele conhece seus colegas pelo avesso do avesso.
Há quase 20 anos todo mundo sabe que esse castelo cafona e megalomaníaco de R$ 25 milhões pertence ao ex-capitão da PM que virou empresário de segurança e deputado federal. O castelo foi fotografado há uma década. Pelo mau gosto, quebra qualquer decoro. O Castelo Monalisa hoje sorri com deboche para seu construtor. Revela muito sobre a personalidade de quem levou 12 anos em obras para satisfazer um capricho da mulher – ela sonhava com uma “casa de campo”. Por que logo agora vão perseguir o dono do castelo, lagos, cascatas, oito torres, 36 suítes, 257 janelas de madeira sucupira? Ninguém sabia de nada?
Edmar tem 70 anos, os cabelos são brancos e não precocemente acajus, como os de alguns deputados que ele considerava “irmãos”. A pele do rosto é encrespada. Sua primeira fala como corregedor foi uma homenagem emocionada e desastrosa à fraternidade entre parlamentares. Diante do “vício insanável da amizade”, todos no Congresso seriam suspeitos para cassar mandatos. Vamos parar de nos julgar uns aos outros. Edmar agora se sente vítima de traição coletiva. Seu partido, o DEM, quer expulsá-lo? Por não declarar o castelo doado ao filho? Pelas dívidas de suas empresas de segurança? Pelo processo contra ele no Supremo? Por que o submetem a esse vexame, como se fosse um intocável? Por que, se não dá pra esconder um castelo na manga? Como explicar que tenha sido eleito por mais de 200 deputados como o fiscal da ética?
Edmar não consegue entender. Eu também não. Ele se agarrou à cadeira. Daqui não saio. Ele confia no Brasil. Talvez renuncie, ou seja exonerado. Mas o senador Renan Calheiros não está de volta, lépido, articulando mais que nunca? Os mensaleiros que Edmar protegeu, quando fazia parte do Conselho de Ética, não sobreviveram? São páginas deprimentes dos anais do Congresso. Edmar confia no nosso sistema político e vai dormir sossegado. Ninguém está nos Estados Unidos e o presidente não é Barack Obama. Na América do Norte, assessores que sonegam são decapitados sem perdão. E sem espalhafato.
Em Brasília, crise é marola, e o novo-velho presidente da Câmara, Michel Temer, diz que “redução de gastos não é prioridade”. Deputados licenciados receberam o salário de um mês, R$ 16.512,09, para trabalhar um dia. Era uma data de gala, a eleição do presidente da Câmara. É ou não um reino da fantasia? No Brasil real, os trabalhadores aceitam redução de salário para não desempregar colegas.
Edmar, filho de carteiro de Juiz de Fora e de professora primária, deve ter tido infância difícil com sete irmãos. Dizem as fofocas em Minas que sua carreira militar acabou por ciúme explícito. O capitão da PM Edmar humilhou um rapaz que cortejara sua mulher. Com escolta policial, teria obrigado o engraçadinho a entrar de pijama numa festa de Réveillon no Clube Dom Pedro II. Só então, afastado da ativa, Edmar descobriu o caminho da riqueza. Mudou-se para São Paulo, formou-se em Direito, fundou uma empresa de segurança e tornou-se deputado federal, primeiro no partido de Collor, depois no partido de Maluf. Foi quando começou a entender o significado da palavra fraternidade.
O município onde Edmar construiu seu castelo, a 70 quilômetros de Juiz de Fora, tem nome de santo. São João Nepomuceno nasceu na República Tcheca, foi preso e torturado por um rei cruel. É o santo protetor da boa fama, protetor contra calúnias. Se eu fosse o deputado, faria promessa. Ou rezaria por uma devassa na vida dos que votaram nele para corregedor mas agora querem crucificá-lo. Ali, ninguém é santo.
Como citou o também colunista da Época, Christopher Hitchens [escritor, colunista da revista Vanity Fair, autor e colaborador regular do New York Times], em 12 de maio de 2008, a excelente fala do deputado americano Dennis Kucinich: “Nós somos as pessoas que nós estamos esperando.”
E então? Vai começar a prestar mais atenção e fazer valer a pena ter orgulho de ser brasileiro ou quer um sachezinho de gel lubrificante?
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