quem pode, pode, quem não pode, vai assistir
Sentada na cadeira 14 da fila F, pensei que já fazia muitos anos – seria pecado afirmar em voz alta? – que não ia ao teatro. A última peça, lembro até hoje, foi um diálogo entre Tony Ramos e uma outra atriz de que não me lembro o nome agora, embora seu rosto esteja guardado em minha memória [comprovando que sempre tive mais facilidade para a parte visual].
Estava em casa “twitando” [gíria para quem participa do Twitter, nova mania web que pode ser bem interessante quando bem utilizada], quando recebi um telefonema de minha irmã me convidando para ver a peça “Viver sem tempos mortos”. O espetáculo é um monólogo, onde a maravilhosa Fernanda Montenegro faz o papel de Simone de Beauvoir, inspirado nas cartas que trocou com o amor de sua vida, Jean Paul Sartre – sobre sua relação, seus amigos e a sociedade em que viviam.
Confesso que cheguei desconfiada. Estava com sono e meio desanimada. Olhei a cenografia e o palco [todo em preto, do chão ao teto] tinha apenas uma cadeira de madeira [preta também, claro] no centro. Mas queria muito ver um trabalho da Fernanda assim, ao vivo, já que ela completou 80 anos e as chances vão diminuindo com o tempo…
Respirei fundo e pensei, como Fernando Pessoa: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Tudo bem que a energia da Rê, minha irmã querida citada anteriormente, não estava ajudando muito [ela tava morrendo de sono, mas com as mesmas esperanças que eu...].
Fernanda entrou, firme, sentou na cadeira, agora iluminada de cima, e começou a falar. Falar, falar, falar. Se fosse outra pessoa, provavelmente depois dos 60 e poucos minutos que durou a peça, todos estaríamos roncando. Mas quem estava no palco, dando um show de interpretação, era Fernanda Montenegro – umas das maiores, se não a maior, atriz que nosso país já produziu.
Rimos, nos emocionamos, e – ao final do espetáculo, na hora das palmas tão duradouras e altas quanto o talento da dama que as recebia, humildemente, ali – choramos ao ver a homenagem que ela prestou ao amigo Sérgio Britto [também ator e diretor de sucesso]. Com os olhos marejados de lágrimas, o chamou ao palco e o abraçou com carinho, tocando a todos na platéia. Um presente para quem esteve no teatro naquela noite especial.
Saí revigorada. Perdi até o sono. Foi uma experiência única.
Gostaria de poder dizer aos que moram ou passam por São Paulo para correr até lá e comprar seu ingresso, mas essa temporada está totalmente esgotada. Pelo andar da carruagem, deve se repetir no segundo semestre. Então, fique de olho e deixe que Fernanda surpreenda a você também.
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