ah, drummond…

“Amar o perdido / deixa confundido / este coração. Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não. As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão. Mas as coisas findas / muito mais de que lindas / essas ficarão.”

“Desejo a vocês… / Fruto do mato / Cheiro de jardim / Namoro no portão / Domingo sem chuva / Segunda sem mau humor / Sábado com seu amor / Filme do Carlitos / Chope com amigos / Crônica de Rubem Braga / Viver sem inimigos / Filme antigo na TV / Ter uma pessoa especial / E que ela goste de você / Música de Tom com letra de Chico / Frango caipira em pensão do interior / Ouvir uma palavra amável / Ter uma surpresa agradável / Ver a Banda passar / Noite de lua cheia / Rever uma velha amizade / Ter fé em Deus / Não ter que ouvir a palavra não / Nem nunca, nem jamais e adeus. / Rir como criança / Ouvir canto de passarinho. / Sarar de resfriado / Escrever um poema de Amor / Que nunca será rasgado / Formar um par ideal / Tomar banho de cachoeira / Pegar um bronzeado legal / Aprender um nova canção / Esperar alguém na estação / Queijo com goiabada / Pôr-do-Sol na roça / Uma festa / Um violão / Uma seresta / Recordar um amor antigo / Ter um ombro sempre amigo / Bater palmas de alegria / Uma tarde amena / Calçar um velho chinelo / Sentar numa velha poltrona / Tocar violão para alguém / Ouvir a chuva no telhado / Vinho branco / Bolero de Ravel / E muito carinho meu.”

“Para você ganhar belíssimo Ano Novo / cor de arco-íris, ou da cor da sua paz, / Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido / (mal vivido ou talvez sem sentido) / para você ganhar um ano / não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, / mas novo nas sementinhas do vir-a-ser, / novo até no coração das coisas menos percebidas / (a começar pelo seu interior) / novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, / mas com ele se come, se passeia, / se ama, se compreende, se trabalha, / você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, / não precisa expedir nem receber mensagens / (planta recebe mensagens? / passa telegramas?). / Não precisa fazer lista de boas intenções / para arquivá-las na gaveta. / Não precisa chorar de arrependido / pelas besteiras consumadas / nem parvamente acreditar / que por decreto da esperança / a partir de janeiro as coisas mudem / e seja tudo claridade, recompensa, / justiça entre os homens e as nações, / liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, / direitos respeitados, começando / pelo direito augusto de viver. / Para ganhar um ano-novo / que mereça este nome, / você, meu caro, tem de merecê-lo, / tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, / mas tente, experimente, consciente. / É dentro de você que o Ano Novo / cochila e espera desde sempre.”

“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar, que daqui pra frente tudo vai ser diferente.”

4 Comments to “ah, drummond…”

  1. By Ana Cristina Taglialatela, 29/09/2008 @ 4:29 AM

    Ah Drummond… De tudo fica um pouco…
    Beijoka Mo, adorei…

  2. By momarch, 30/09/2008 @ 2:23 AM

    Oi, Ana… Realmente Drummond é sensacional.

    E é ótimo ter novos visitantes aqui no blog. Principalmente aqueles que sabem reconhecer o belo uso da nossa língua portuguesa. =]

    Já que você gostou, volte sempre que puder para deixar as suas opiniões e comentários!

    Gde bj,
    Mo.

  3. By Luiz de Almeida, 23/11/2009 @ 9:49 PM

    ANA:
    POR GENTILEZA – PODERIA MENCIONAR O TÍTULO DO LIVRO DO DRUMMOND QUE ESTÁ EDITADO ESSE POEMA TEXTUAL?
    OBRIGADO E:
    ESTEJA E SEJA E FIQUE FELIZ!

  4. By mo march, 25/11/2009 @ 3:34 PM

    Qual dos poemas, Ana?

    Bjkss

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